esqueceu de abrir as janelas.
deixou a pasta de dentes sobre a pia.
o chinelo pela cozinha.
esqueceu da vizinha.
do porteiro.
agradeceu o carteiro.
e quando sentiu-se um pouco dela...
tocou o próprio rosto, com todo o zelo.
olhou pra mesa,
pro corredor e viu todo o vazio.
sentiu falta de um pedaço do seu corpo.
um pedaço dos próprios sentidos.
carinhos.
pra onde foram?
quem deixou?
cabeça entre as maos preocupadas,
preocupadas com os números que contariam por todo o dia.
a flor sobre a mesa.
o mesmo desgaste.
e como ela queria...
a mesa ao lado,
o sonho do outro.
um pedaço do outro corpo...
os outros sentidos.
respira.
e recomeça!"
na escola me disseram que eu era o futuro do país.
e até diziam que eu poderia ser presidente e talz,
era só estudar.
em casa, meu pai ouvia que "somos o futuro da naçao, geraçao coca-cola". geraçao coca-cola.
mas eu nao entendia uma coisa...
eu nao queria ser presidente,
eu queria ser apresentadora de programa infantil,
depois queria jogar basquete.
eu tinha bonecas, tinha casa e até piscina pra elas.
por que eu ia querer ser presidente?
tem coisa que adulto diz e nao pensa nas consequências...
talvez, eu nunca parasse de crescer,
e entao eu teria de morar numa casa sem teto...
afinal, "meeeeeniiiina! como você cresceu! vai ficar gigante! nenhuma tia pensa nas consequências de te chamar de fofinha
buxexuda, gigante.
ou pior...
nenhum professor pensava na consequência de te chamar de
futuro presidente do brasil.
poderia ter sido traumatico.
eu poderia ter crescido revoltada com isso.
por que a xuxa poderia ser a xuxa?
e por que eu, logo eu, teria de ser presidente?
eu nunca mais acreditei em professor nenhum.
nao quero ser apresentadora de programa infatil,
muito menos jogadora de basquete.
e no final,
a escola me ensinou a odiar matematica
e professores de história.
nao, eu nao sou o futuro da naçao!
nao me jogue a culpa.
se agora as coisas vao ser melhores...
se eu vou me resolver profissionalmente...
e descer a mesma rampa, onde caminhou
com tantas maos diferentes,
amores, calores.
quantas dores.
é um dia de olhar pra tras e ver o melhor que você ja fez.
ver o quanto mudou, o quanto melhorou.
crescer.
é dia de dar bom dia pro vendedor de roupas debaixo do viaduto.
dia de decisao.
o nariz nao para de escorrer.
a cabeça lateja.
e a garganta arranha.
mas o dia,
ahh! o dia ta ensolarado!
você nao deveria estar falando desse jeito.
nem comendo isso.
seu olhar deveria ser diferente.
e suas maos deveriam fazer outras coisas.
por que você ta lendo isso?
com quem você se completa?
quem você ama?
de onde vem esses segredos?
os velhos amigos deveriam estar por perto.
você devia estar mais perto de você mesma, nesses dias frios e úmidos.
deveria ter aprendido a se conter.
a dizer o indispensavel a quem detesta.
outras poses pras fotos desgastadas.
tira a bjork do playlist.
esconde as lagrimas.
desvenda a alegria.
você pode ser isso.
pode se encontrar com essas pessoas.